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Contábil

Carry trade: impactos contábeis e cambiais no Brasil

03 de novembro de 2026 4 min de leitura Contábil
Carry trade: impactos contábeis e cambiais no Brasil

O movimento de captação de recursos no exterior a taxas de juros baixas para posterior investimento no mercado financeiro brasileiro é uma das estratégias mais conhecidas das finanças internacionais, denominada Carry Trade. Quando o investidor estrangeiro realiza essa operação, ele aciona uma engrenagem macroeconômica que impacta diretamente o balanço de pagamentos, as taxas de câmbio e a liquidez do mercado brasileiro.

Para compreender o impacto real dessa dinâmica, é necessário analisar o fluxo sob uma visão contábil rigorosa, observando como esses lançamentos se refletem tanto nas demonstrações financeiras das entidades envolvidas quanto na contabilidade nacional (Balanço de Pagamentos).

A estrutura da operação: captação e origem dos recursos

Na origem (seja nos EUA, Zona do Euro ou Japão), o investidor estrangeiro (frequentemente um fundo de hedge ou instituição financeira) contrai uma obrigação junto ao sistema financeiro ou governo local.

  1. Contabilidade do Investidor Estrangeiro (Origem):

Débito: Caixa / Disponibilidades (Ativo Circulante)

Crédito: Financiamentos / Empréstimos a Pagar (Passivo Exigível)

A ótica do custo: O passivo é indexado a uma taxa de juros baixa (ex: Fed Funds Rate ou SOFR nos EUA). O objetivo contábil do investidor é gerar um rendimento no Ativo que supere o custo desse Passivo, considerando a variação cambial.

A entrada do capital no Brasil e o impacto no balanço de pagamentos

Ao direcionar o capital para o Brasil, o investidor precisa internalizar os recursos. Isso exige a liquidação de um contrato de câmbio: ele vende a moeda estrangeira (ex: USD) e compra a moeda nacional (BRL).

Na contabilidade do país receptor (o Brasil), essa transação é registrada pelo Banco Central no Balanço de Pagamentos, seguindo o método das partidas dobradas:

  1. Conta no Balanço de Pagamentos: Conta Financeira (Investimento em Carteira);
  2. Natureza do Lançamento: Registra o ingresso do recurso do não residente no país;
  3. Impacto Prático: Débito (Aumento de Ativos) A moeda estrangeira líquida passa a compor as reservas do país.

Reflexo Cambial: Contabilmente, o excesso de oferta de moeda estrangeira no mercado à vista pressiona a valorização do Real (redução da taxa de câmbio USD/BRL).

A alocação no Brasil: Renda fixa e títulos públicos (Selic)

Com os Reais em conta, o investidor estrangeiro geralmente adquire títulos públicos federais (como as Letras Financeiras do Tesouro - LFT, indexadas à taxa Selic) ou títulos privados de alta liquidez.

A remuneração desses títulos é contabilizada mensalmente pelo regime de competência. O investidor estrangeiro reconhece uma Receita Financeira (Juros Ativos) no seu resultado, enquanto o governo brasileiro reconhece uma Despesa Financeira (Juros Passivos), aumentando o passivo da dívida pública.

O risco de câmbio e a contabilização de hedge

Como o passivo do investidor está em moeda estrangeira e o ativo está em Reais, a volatilidade cambial é o maior risco da operação. Se o Real se desvalorizar perante a moeda de origem, o ganho com o diferencial de juros pode ser totalmente anulado.

Para mitigar isso, investidores utilizam o mercado de derivativos (como contratos futuros de dólar na B3). Sob as normas contábeis internacionais (IFRS 9 / CPC 48), a operação pode ser estruturada como Contabilidade de Hedge (Hedge Accounting):

Hedge de Valor Justo: As variações de valor justo do derivativo (proteção) e do objeto de hedge (título em BRL convertido para a moeda estrangeira) são reconhecidas simultaneamente no resultado do período, neutralizando a volatilidade.

Ajuste de Avaliação Patrimonial (AAP): Se não qualificado estritamente para hedge accounting, as variações cambiais do ativo no Brasil e do derivativo são marcadas a mercado no resultado, gerando oscilações patrimoniais brutas até o encerramento da posição.

O desfazimento da posição e a repatriação (O desmonte do Carry)

O ciclo se encerra quando o diferencial de juros diminui ou a percepção de risco Brasil aumenta. O processo contábil de saída inverte os lançamentos iniciais:

  1. Liquidação do Ativo no Brasil: O investidor vende os títulos públicos. O Ativo retorna para a forma de Caixa (BRL).
  2. Operação de Câmbio Reversa: Compra-se moeda estrangeira no mercado doméstico. No Balanço de Pagamentos do Brasil, há um débito na Conta Financeira (saída de capital) e um crédito nas Reservas Internacionais (redução de ativos do BACEN).
  3. Liquidação do Passivo na Origem: O investidor utiliza a moeda estrangeira repatriada para quitar o empréstimo inicial no exterior, baixando o Passivo Exigível contra o Caixa na matriz.

Do ponto de vista contábil, o movimento do investidor estrangeiro é uma arbitragem de balanço. O Brasil atua como um captador de passivos externos de curto prazo que se transformam em ativos altamente líquidos para o investidor estrangeiro. Enquanto o capital permanece no país, ele melhora temporariamente a posição de liquidez internacional do Brasil (reservas internacionais), mas deixa uma contrapartida de aumento na dívida pública interna, cuja despesa de juros impacta negativamente o resultado nominal do setor público brasileiro.



Fonte: Portal Contábeis.

Fonte consultada: Portal Contábeis

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